Malukos Beleza ensaia na Fundação Ecarta

A banda Malukos Beleza, formada por jovens com deficiência intelectual, ensaia há dois anos na Fundação Ecarta, dentro do projeto Ecarta Anfitriã. Criada como um projeto pedagógico e hoje mantida de forma voluntária, a banda utiliza a música como ferramenta de inclusão, expressão e autonomia, com um repertório que valoriza a diversidade da música brasileira. Mais do que apresentações, o grupo promove visibilidade, questiona estigmas e transforma afetivamente os espaços por onde passa, reafirmando que a diferença é potência e que acolhimento gera pertencimento.

o projeto

A banda Malukos Beleza nasceu como um projeto pedagógico na Escola Municipal de Ensino Fundamental Elyseu Paglioli em Porto Alegre, voltada à educação especial. Inicialmente, os integrantes eram alunos com déficits cognitivos e transtornos do desenvolvimento, sob a coordenação da professora Eliana Maria Moura Corrêa. Após a conclusão do processo de escolarização desses alunos, o projeto passou a funcionar de forma autônoma e voluntária desde 2019.

A banda é composta por adolescentes e jovens adultos que encontraram na música um meio de expressão sensível e criativa. O repertório inclui grandes nomes da música brasileira, como Mutantes, Arnaldo Antunes, Raul Seixas, Marisa Monte, Rita Lee, Ana Carolina, entre outros — com destaque também para os compositores gaúchos Antônio Villeroy e Bebeto Alves, reafirmando a diversidade da produção musical brasileira além do eixo Rio-São Paulo.

Desde sua criação, o grupo já se apresentou em escolas, simpósios, bares e espaços culturais, promovendo a inclusão pela arte e questionando a visão capacitista que ainda persiste na sociedade. O projeto reafirma que a diversidade não é um problema, mas um valor fundamental para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa, solidária e inclusiva.

origem 

O projeto surgiu como uma resposta à falta de espaços adequados de socialização e lazer para jovens com deficiência intelectual que ultrapassam os 21 anos — idade limite para permanência nas escolas de educação especial. Também ofereceu, desde o início, vagas a estudantes da rede regular de ensino no contraturno, promovendo a inclusão reversa: pessoas sem deficiência aprendendo e convivendo em um ambiente especializado.

Com poucos recursos e enfrentando desafios como a falta de equipamentos, transporte e espaço físico adequado, o projeto seguiu em frente movido pelo compromisso com a arte, a educação e a transformação social.

A proposta pedagógica da professora Eliana Corrêa — pedagoga com habilitação em Educação Especial e pós-graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional — é utilizar a música como ferramenta para desenvolver habilidades cognitivas, sociais e emocionais dos participantes, além de trabalhar conteúdos escolares de forma transversal.

visibilidade 

Estima-se que 14,5% da população brasileira tenha algum tipo de deficiência — cerca de 25 milhões de pessoas. No entanto, essa população ainda permanece invisível em muitos espaços: não os vemos proporcionalmente nas escolas comuns, nos clubes, nas igrejas, nem nos espaços culturais.

Diante desse cenário, Malukos Beleza busca ampliar a visibilidade dessas pessoas, mostrando que são capazes, talentosas, inteligentes e criativas. A música se torna, assim, uma poderosa ferramenta de transformação, empoderamento e pertencimento.

o nome

O nome da banda é inspirado na canção “Maluco Beleza”, de Raul Seixas, e carrega uma provocação filosófica: o que é ser “normal” em uma sociedade que tenta padronizar comportamentos e aparências? O nome desafia essa lógica e propõe a valorização das singularidades e diversidades humanas, subvertendo estigmas e preconceitos.

Objetivos do projeto

  • Promover a inclusão de pessoas com deficiência intelectual em espaços culturais e de lazer.
  • Desenvolver habilidades subjetivas como expressão, autonomia e socialização.
  • Estimular capacidades cognitivas: linguagem, coordenação motora, memória e comunicação.
  • Ampliar o repertório cultural dos integrantes e do público.
  • Dar visibilidade à diversidade e à inclusão.
  • Tornar o ensino de música acessível.
  • Proporcionar experiências de palco e apresentações públicas.

Público e abrangência

A banda é formada por 12 jovens com deficiência intelectual, todos com mais de 21 anos, moradores da região sul de Porto Alegre — especialmente dos bairros Cruzeiro, Cristal e Divisa.